Sentada num bistrô simpático da cidade, acomodo minha bolsa na cadeira desocupada ao meu lado direito e espero pacientemente o garçom trazer o cardápio para mim. Claro que fico olhando para ele, fazendo aquela pressão para ele trazer logo o bendito menu para eu fingir que escolho alguma coisa da lista. Sim, finjo porque já sei exatamente o que quero: cappuccino italiano sem canela e um croissant com geleia de damasco. Hum… delícia! Mas preciso segurar o cardápio e fazer de conta que escolho calmamente, só para fazer charme… é chique, dizem.
Bom, chamo o garçom, ele vem a passos de tartaruga e finalmente finge que anota meu pedido de sempre, de toda semana (“Que mulher sem criatividade, nosso cardápio cheio de gostosuras, e ela SEMPRE pede a mesma coisa!”) Tudo faz parte do ritual cliente-garçom. Temos que manter a pose!
A cadeira é pouco confortável e a mesa alta. Ligo meu laptop, acesso a internet e começo a ler o noticiário, as fofocas (confesso que tenho passado mais tempo nas colunas e sites de fofocas dos famosos; preciso entender que universo é esse, tão instável, intenso e que em nada acrescenta para meu crescimento. Pequenos vícios ridículos do dia a dia).
Com o costume de visitar o lugar pelo menos uma vez por semana, frequentemente “dou de cara” com um rapazinho muito simpático, que sempre vence a competição de quem chega mais cedo e pega a melhor mesa. Imagino que se eu madrugar na porta do cafezinho, assim como as fãs enlouquecidas do Justin Bieber fizeram quando o pentelho veio ao Brasil recentemente, meu vizinho de mesa já estaria lá na frente, garantindo conquistar a melhor mesa do lugar. Tudo bem, qualquer dia tomo coragem e peço para compartilhar a bendita mesa!
No início colocava meus óculos de grau para fazer charme, dar uma de intelectual, fashionista. Eles nem eram tão necessários. Mas, com o passar dos dias, a visão foi piorando e paguei a língua: sem eles, não enxergo nem os ícones da Área de Trabalho. Agora, mesmo já não me achando tão charmosa mais com os lindos óculos de grife, ai de mim se ousar ler sem eles. A olheira vai ficando mais escura, a testa vai franzindo, aí sim, ficarei patética, como aquelas pessoas que afastam sua leitura dos olhos, esticando os braços, a fim de conseguirem ler qualquer coisa, até mesmo a conta do restaurante, porque deixaram os óculos em casa. Ô ceninha mais “pitoresca”….
Chegou o meu pedido. “Aqui está, senhora, seu cappuccino e seu croissant (pra variar) .” “Obrigada, querido”.
A xícara branca quadradinha e o pratinho em forma de lua crescente (daí o nome “croissant”) são um charme do design, devo reconhecer. Como é bom comer e beber em louças bacanas, bonitas de se ver. É prazeroso! Melhor seria se o gatinho da mesa ao lado fosse embora e me cedesse a mesa, claro.
Mas, por que o título “Espiã”? Claro, esqueci de admitir que estou aqui, absorta em meus pensamentos, leituras, sms, olhando pro teto, mas não tão absorta assim. Às vezes dou uma olhadela pro lado para espiar meus vizinhos. Não por curiosidade no que fazem, longe de mim me intrometer na privacidade dos outros (tá bom, só um pouco, vá!), mas para aprender coisas novas, pegar algumas dicas no ar, novas ideias, informações culturais que não estão nos jornais, vocabulário novo e otras cosas más. Afinal, há tanta gente interessante ao nosso redor que não nos custa dar uma espiadinha de vez em quando. Numa cidade fria como esta, a gente usa estratégias pouco convencionais para ter um pouco de troca, não é mesmo?
Huda Jamaleddine
Sua opinião já é uma poesia per se. Obrigada, Diego.
Texto bom é esse que transforma nosso olhar do cotidiano…
Que revela aquele sentimento escondido por trás de tantas coisas…
A beleza está em nossos olhos! Deixemos de romantismo parnasiano…
Transformar um café com croissant em poesia, é para pouquíssimos!